Tirem os anúncios da sala

Por gocom 6 anos atrásNenhum comentário
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Quem associa a carreira dos publicitários a festas, prêmios e glamour tem lá sua parcela de razão. Só que cada vez menos. Hoje, os happy hours e recepções descoladas são frequentemente trocados por horas e horas de discussões e debates sobre uma parte que, ao longo dos anos, tem crescido a olhos vistos: o jurídico. Não basta mais falar do produto: é preciso ver o que pode ser dito.

Promoções suspeitas e propagandas enganosas – para o bem de todos, que fique claro – não têm mais espaço no mundo do “power to the costumer”. Mas, nessa corrida desenfreada para preservar tudo e todos, estamos diante de um cenário assustador: o de não poder falar quase mais nada para quase ninguém.

Cabe aqui um parêntese: desde a criação do CONAR, em 1980, nunca houve tantas denúncias sobre anúncios/ações que feririam o público (ou o próprio código do conselho) de alguma maneira. É por isso que o Ronaldo não pode mais passar trotes no Neymar, pois trote não é legal. O Neymar já não zoa mais os gringos que vem para o Brasil, pois isso é bullying com os estrangeiros. E por aí vai. Mas, como a própria campanha atual do CONAR diz, nem toda denúncia é considerada pertinente e retira anúncios do ar. Graças a Deus. Se não fosse assim, o filme de VISA que aconselha a comprar com cartão (pois usar dinheiro é ‘pagar mico’) teria sido proibido por “insultar a moeda nacional”. A gente não sabe quem fez essa denúncia, mas com certeza não foi nossa moeda. Parêntese fechado.

Recentemente, o Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, aprovou uma resolução que recomenda a proibição da publicidade infantil no país. Assim, comerciais, spots, sites e qualquer comunicação direcionada às crianças estão a um passo de serem proibidos. Isso se aplica ainda a embalagens, promoções e materiais de PDV. Pois é.

Alguns dirão: “problema de vocês” (vocês = publicitários). Mas talvez o buraco seja mais embaixo. Perder esse enorme nicho de comunicação não vai fazer estrago apenas nas agências. É só seguir o raciocínio: se ninguém mais vai ficar sabendo que tal produto existe, quem irá comprá-lo? Se o (ex-) anunciante não vende, cabeças vão rolar ali também. O (ex-)funcionário não vai mais pagar o convênio, nem a escola das crianças e a bola de neve não para mais de crescer. Ou seja, o “mal” a que as crianças ficam expostas merece um remédio tão caro? Medidas homeopáticas não dariam conta do recado?

O assunto é mais sério e extenso do que parece. A famosa “Lei da Cidade Limpa” mostrou aos governantes uma visão cômoda de que proibir é bem mais fácil do que regulamentar e fiscalizar. A publicidade infantil está indo para o mesmo caminho. No país que, mesmo com a Copa, vai crescer no ano quatro vezes menos que a China, ações que engessam ainda mais o mercado podem ter um efeito irônico: preservar o presente das crianças colocando em risco o seu futuro.

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